Política

Filha de vítima de feminicídio quer ser delegada para proteger outras mulheres

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O desejo da menina de virar delegada não é por acaso. Sua mãe foi morta pelo ex-companheiro, seu padrasto, em setembro de 2016, no Jardim Carioca, na Ilha do Governador, após ter deixado a delegacia da área. Na unidade policial, a vítima denunciou o agressor por ameaças sofridas naquele dia. O homem também estava presente, mas ambos foram liberados. A mulher foi assassinada a facadas em sua casa logo em seguida

RIO — O trauma é difícil de ser superado, e o que aconteceu, impossível de ser esquecido. Mas X., de 17 anos, que perdeu a mãe há quatro, vítima de feminicídio, tenta transformar a dor em vontade de ajudar outras mulheres. A adolescente não tem dúvidas, ao ser questionada sobre seus planos: deseja ser delegada de polícia para auxiliar na proteção de vítimas de violência doméstica e também de seus filhos, que, como ela, ficam desamparados com a perda da mãe para um crime tão bárbaro. Em 2019, 85 mulheres foram vítimas de feminicídio no Estado do Rio de Janeiro, um aumento de 19,7% em relação a 2018, quando foram registrados 71 casos.

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O desejo da menina de virar delegada não é por acaso. Sua mãe foi morta pelo ex-companheiro, seu padrasto, em setembro de 2016, no Jardim Carioca, na Ilha do Governador, após ter deixado a delegacia da área. Na unidade policial, a vítima denunciou o agressor por ameaças sofridas naquele dia. O homem também estava presente, mas ambos foram liberados. A mulher foi assassinada a facadas em sua casa logo em seguida.

Quero poder ajudar outras mulheres e seus filhos para não passarem pelas coisas por que eu passei e minha mãe também — diz a adolescente, que completa 18 anos em março.

X. e sua irmã, de 15 anos, não estavam em casa quando a mãe foi morta. Mas o fato de não terem presenciado o crime não fez com que o trauma fosse menor. A adolescente, que é acompanhada por uma psicóloga, precisa usar medicamentos controlados e desenvolveu depressão. Ela e a irmã foram acolhidas por uma tia materna.

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O maior receio das irmãs é que o acusado de matar a mãe delas, preso uma semana após o crime, seja solto e possa fazer algo contra a família. O homem não é pai das meninas e se relacionou com a mãe delas por pouco mais de um ano antes do crime. O pai de X. foi assassinado quando ela tinha apenas 6 meses.

PUBLICIDADE Novo julgamento O ex-companheiro da mãe de X. está atrás das grades há mais de quatro anos. Em maio de 2018, ele foi condenado em júri popular a dez anos de prisão por homicídio simples, ou seja, sem levar em conta a qualificadora de feminicídio. O Ministério Público do Rio recorreu, alegando que a decisão dos jurados foi “manifestamente contrária à prova dos autos”, uma vez que as investigações demonstraram que o crime havia sido cometido em situação de violência doméstica e familiar. Em fevereiro de 2019, os desembargadores da 3ª Câmara Criminal concordaram com o MP, anularam o júri e determinaram novo julgamento. A nova sessão está marcada para o mês que vem.

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A tia de X. nunca teve dúvidas do desafio que seria assumir os cuidados das duas sobrinhas. Mesmo sem condições financeiras, resolveu acolhê-las. No ano passado, a mais nova passou a morar com uma avó de consideração para que a tia ficasse menos sobrecarregada.

— O início foi muito difícil. As sequelas que elas têm são para o resto da vida. Procuro acolhê-las com religião e espiritualidade, além do acompanhamento psicológico. As duas têm muito medo dele (ex-padrasto) — afirma a tia.

PUBLICIDADE X. tinha 13 anos quando a mãe foi morta e enfrentou muitas dificuldades para lidar com a perda e o fim daquele núcleo familiar. Ela, a irmã e a mãe eram extremamente unidas. E os traumas que as meninas carregam não são apenas pelo crime, mas também por terem presenciado diversos episódios de violência do padrasto contra a mãe.

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X. recorda-se de que, muitas vezes, também acabava agredida ao tentar defender a mãe. Como se não bastasse, ela e a irmã ainda eram ameaçadas pelo acusado.

Demorou muito para eu enfrentar o que vivi. Eu descontava em tudo, vivia em crise. Só consegui com o apoio da família e de psicólogos. Minha irmã não aceita tratamento, nunca quis. Diz que está bem, mas sabemos que não é verdade. Ela dorme mal, tem pesadelos — conta.

Os desafios enfrentados pela tia, logo que passou a cuidar das meninas, incluíram a busca por tratamento para ambas. Na Clínica da Família do bairro onde moravam, elas entraram na fila de atendimento, mas nunca foram chamadas. X. chegou a ser atendida no Instituto Philippe Pinel, em Botafogo, mas a tia não ficou satisfeita com o tratamento.

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Há cerca de dois anos, elas contam com o auxílio da advogada Marilha Boldt, que passou a se dedicar a causas de violência doméstica após ela própria ter sido vítima do ex-marido. Marilha afirma que faltam políticas públicas para essas famílias.

Percebo que a rede de tratamento pensa na vítima e esquece seus arredores. Independentemente do feminicídio ocorrer, os filhos que presenciam violência doméstica são cheios de transtornos e medos. As consequências da violência são imensas para os filhos — afirma a advogada, que integra o Núcleo Interamericano de Direitos Humanos da UFRJ.

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No Rio, o Núcleo Especial de Defesa dos Direitos da Mulher (Nuden) da Defensoria Pública do estado faz atendimento de vítimas e de familiares. A psicóloga Pâmella Rossy, que integra o grupo, afirma que não há uma rede de saúde específica para tratar de filhos de vítimas de feminicídio:

Para quem acabou de sofrer um trauma e ver a mãe sendo assassinada, há necessidade de que esse acompanhamento seja imediato.