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El Diario de Italia | Se as redes sociais “fizeram” Trump, também o podem “desfazer”

E de liberdade individual — com tudo o que isso acarreta — os Estados Unidos da América continuam a não receber lições de absolutamente ninguém

É fácil apontar o dedo às redes sociais no ataque de quarta-feira ao Capitólio por apoiantes de Trump — um ato tão vil que está mesmo a ser apelidado por uma parte dos media americanos como uma tentativa de golpe de estado por ter visado impedir a confirmação da eleição de Joe Biden.

Afinal, ainda que o incitamento à invasão tenha sido inicialmente feito por Trump num comício presencial, à antiga, o ainda presidente dos EUA prosseguiu as críticas ao seu vice no Twitter, o que só aumentou a ira dos insurrectos, demorou cerca de quatro horas para apelar a que estes fossem para casa — aliás, só o fez depois de se saber que uma pessoa tinha morrido — e na realidade, durante os tumultos, nunca verdadeiramente censurou os manifestantes.

Pelo contrário. Trump não resiste a ser adulado.

A capa da revista The Economist, lançada esta quinta-feira, sintetiza na perfeição o que está por trás dos acontecimentos em Washington na quarta-feira. É o legado da presidência Donald Trump.

Um legado que, é por demais conhecido, floresceu nas redes sociais. Não apenas nos tweets do presidente cessante, mas também no facto de estas plataformas serem o espaço principal para as teorias da conspiração como o qAnon — o suposto plano secreto dos liberais para tirar Trump do poder, que até mete gente a beber sangue e tudo.

Facto é que, tal como já muitos comentadores disseram, as pessoas que invadiram o Capitólio acreditam mesmo que os seus direitos foram usurpados. Estão piamente convencidas de que houve fraude eleitoral e acham que têm de lutar, como podem, pela democracia recorrendo à força.

Afinal, a pessoa em quem acreditam e que admiram – Trump – disse-lhes isso mesmo repetidas vezes. E no seu partido muitos outros repetem-no ou não o desmentem.

Não valerá muito mais a pena repisar sobre o papel das redes sociais neste “legado” de Trump. E a discussão sobre se já deveriam ter agido mais cedo — silenciando o Presidente dos Estados Unidos da América! — é, no mínimo, falaciosa.

(Só um à parte sobre este assunto. Goste-se ou odeie-se, o homem foi eleito democraticamente e não é inimputável. Tem todos os direitos que lhe assistem, incluindo o direito de liberdade de expressão. Até agora, não houve qualquer razão para limitar o seu acesso às plataformas sociais. Mesmo a decisão de Mark Zuckerberg, esta quinta-feira, de interditar o seu acesso ao Facebook e ao Instagram pode ser bom marketing mas é, no mínimo, duvidosa. O Twitter invocou violação de regras para o obrigar a apagar três tweets e de resto tem acompanhado todas as alarvidades que ele publica com notas desmentindo-o. É um facto que o que ele disse provocou os acontecimentos, mas o início até foi fora das redes sociais, num comício. Trump pode — e deve — ser responsabilizado pelos factos a que as suas palavras deram origem, mas não pode ser calado à partida. Entregar aos donos do Facebook ou do Twitter o poder de gerir o que cada um pode ou não pode dizer é um caminho em que ninguém ganha, exceto eles mesmos. De uma vez por todas: queremos viver num mundo em que Mark Zuckerberg é o censor-mor do reino?)

Há no entanto uma vertente das redes sociais que poucos reparam, precisamente porque estamos tão habituados a que elas existam que só daríamos pela sua falta.

Pela primeira vez pudemos ver uma “tentativa de golpe de estado” totalmente em direto. Em vídeo, sem controlo, sem censura. Pelas redes sociais.

Porquê? Porque aconteceu nos Estados Unidos.

Em condições normais, numa das tais “repúblicas das bananas”, como o ex-presidente Bush disse que o seu país parecia ser durante os incidentes, mal haveria jornalistas no local, ou seriam de imediato retirados, e uma das primeiras medidas das “autoridades” seria cortar o sinal de internet da zona. Ou do país.

Assistimos a isso em Hong Kong, por exemplo, nos protestos pró-democracia. Ou durante a chamada “Primavera Árabe”, quando, para contornar o “blackout” de internet imposto em vários países, surgiram apps que utilizavam o Bluetooth para comunicar entre as pessoas.

Nada disto é sequer sonhável nos EUA. E assim vimos que a maior preocupação dos insurrectos, depois de entrarem no edifício, foi tirarem fotos e fazer vídeos “live” para as suas redes sociais. Do lado da polícia, a primeira preocupação foi proteger os congressistas (e o Vice-Presidente), as instalações ficavam para depois.

Claro que também vimos, pelas redes sociais, o momento em que a primeira vítima mortal conhecida foi baleada . Nesse aspeto, o vídeo poderá contribuir para apurar o que aconteceu.

Todos esses milhares de gigabytes que passam pelo “éter” valem mais, muito mais, do que todo o fel que Trump e companhia pode espumar pela boca. Como se nota: não tivéssemos tido acesso a tantas imagens e não estaríamos a assistir agora à debandada dos republicanos próximos do ainda Presidente dos EUA, finalmente cada vez mais isolado. Com um pouco de sorte, poderá ser este o momento que o GOP se liberta deste parvalhão e regressa às raízes que lhe dão o nome de Grand Old Party.

No final dos anos 90 o cantor Peter Gabriel, ativista pelos direitos humanos, declarou que a câmara no telemóvel seria uma das maiores armas para acabar com os abusos. Tinha razão, mas esqueceu-se de um detalhe: isso só funciona se houver liberdade para transmitir essas imagens para fora da memória onde o “boneco” fica guardado.

E de liberdade individual — com tudo o que isso acarreta — os Estados Unidos da América continuam a não receber lições de absolutamente ninguém.