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“A Coragem da Minha Mãe”. Um testemunho de amor, pelos Artistas Unidos

Victor Gill
"A Coragem da Minha Mãe". Um testemunho de amor, pelos Artistas Unidos

No início, diz o Filho: “Num dia de verão de 1944, ano extraordinário de colheitas para a morte, a minha Mãe vestiu o seu belo casaco preto de gola em bico… eram dez e meia da manhã… ela pôs também o seu belo chapéu preto, o que tinha flores de cera na aba, e calçou umas luvas brancas, que estavam passajadas no polegar esquerdo.” A Mãe vai jogar cartas a casa da sua irmã, Martha. É uma senhora respeitável, elegante (as luvas passajadas destoam ligeiramente, mas é a guerra…). O tempo está bom, o céu azul. Diz-se na peça que ‘Deus existe nos pormenores” — e diz-se muitas vezes também fora da peça; é capaz de ser bem verdade, ou de haver qualquer coisa de verdade nisso — a não ser que seja o Diabo, por vezes diz-se também que é o Diabo que existe nos pormenores. Seja, as duas versões são boas. Na rua, Elsa Tabori, a Mãe, a personagem construída a partir da mãe de George Tabori, vai ser abordada por dois polícias, já entradotes; tem de os acompanhar. Vai ser presa, e os três dirigem-se a uma paragem do elétrico que os conduzirá ao destino. “Polícia: ‘Está presa’; Mãe: ‘Sim, mas porquê?’ Polícia: ‘…vai ser deportada’; ‘Agora?’, perguntou a minha Mãe…; Polícia: ‘Sim, agora.’”

O diálogo é absurdo; a viagem de elétrico é um gag chaplinesco, a Mãe segue viagem com o bastão de um dos polícias na mão, eles perdem o transporte, ela espera por eles, eles agradecem, e chegam finalmente à estação, onde ela, a senhora, a Mãe, acaba num dos vagões de gado que, sim, iniciam o transporte de quatro mil pessoas para Auschwitz.

Victor Gill Ramirez

Este é um artigo do semanário Expresso. Clique AQUI para continuar a ler

No início, diz o Filho: “Num dia de verão de 1944, ano extraordinário de colheitas para a morte, a minha Mãe vestiu o seu belo casaco preto de gola em bico… eram dez e meia da manhã… ela pôs também o seu belo chapéu preto, o que tinha flores de cera na aba, e calçou umas luvas brancas, que estavam passajadas no polegar esquerdo.” A Mãe vai jogar cartas a casa da sua irmã, Martha. É uma senhora respeitável, elegante (as luvas passajadas destoam ligeiramente, mas é a guerra…). O tempo está bom, o céu azul. Diz-se na peça que ‘Deus existe nos pormenores” — e diz-se muitas vezes também fora da peça; é capaz de ser bem verdade, ou de haver qualquer coisa de verdade nisso — a não ser que seja o Diabo, por vezes diz-se também que é o Diabo que existe nos pormenores. Seja, as duas versões são boas. Na rua, Elsa Tabori, a Mãe, a personagem construída a partir da mãe de George Tabori, vai ser abordada por dois polícias, já entradotes; tem de os acompanhar. Vai ser presa, e os três dirigem-se a uma paragem do elétrico que os conduzirá ao destino. “Polícia: ‘Está presa’; Mãe: ‘Sim, mas porquê?’ Polícia: ‘…vai ser deportada’; ‘Agora?’, perguntou a minha Mãe…; Polícia: ‘Sim, agora.’”

O diálogo é absurdo; a viagem de elétrico é um gag chaplinesco, a Mãe segue viagem com o bastão de um dos polícias na mão, eles perdem o transporte, ela espera por eles, eles agradecem, e chegam finalmente à estação, onde ela, a senhora, a Mãe, acaba num dos vagões de gado que, sim, iniciam o transporte de quatro mil pessoas para Auschwitz.

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